47 ANOS DE MPLA NÃO É EXAGERO. É PANDEMIA!

O ex-ministro dos Antigos Combatentes e Veteranos da Pátria… do MPLA, na altura governador do Huambo, Kundi Paihama (já falecido), dizia que a história de Angola era rica em exemplos e actos indeléveis de heroísmo e valentia protagonizados por milhares de patriotas angolanos, e pelo sacrifício dos melhores filhos desta pátria.

Sim, era o mesmo Kundi Paihama que disse: “Durmo bem, como bem e o que restar no meu prato dou aos meus cães e não aos pobres”. Sim, era o mesmo Kundi Paihama que afirmou: “Eu semanalmente mando um avião para as minhas fazendas buscar duas cabeças de gado; uma para mim e filhos e outra para os cães”. Sim, era o mesmo Kundi Paihama que aconselhou os angolanos de segunda a comer farelo porque “os porcos também comem e não morrem”.

Como sempre fazia quando falava do aniversário do início da luta armada de libertação nacional, em representação do então “querido líder” e mentor de João Lourenço, José Eduardo dos Santos, Kundi Paihama dizia que “é graças a este heroísmo que da luta armada de libertação nacional contra o regime colonial português que hoje honoramos a memória dos nossos heróis preservando a paz e democracia”.

De acordo com o ex-ministro do farelo, foi a partir da inspiração e coragem e determinação desta acção que se considerou que a via armada era a única solução para derrubar o regime colonial, generalizando-se aos poucos em todo o território nacional, gerando um amplo movimento de libertação nacional.

Talvez tenha sido a partir dessa inspiração que o MPLA também resolveu matar milhares e milhares de outros angolanos, como fez Agostinho Neto nos massacres de 27 de Maio de 1977, facto que levou o MPLA a considerá-lo o único herói nacional, e João Lourenço a atribuir – por exemplo – o seu nome ao novo aeroporto de Luanda.

Mais uma vez os especialistas (muitos são portugueses) contratados pelo regime angolano disseram a João Lourenço que a vitória eleitoral não está garantida. O MPLA está cada vez mais nervoso e procura, para além das tradicionais vigarices eleitorais, soluções mais radicais. Iremos assistir a uma reedição da estratégia seguida em 2012?

Pouco antes das eleições de 2012, em várias províncias, nomeadamente Benguela e Kwanza Sul, a população começou a debandar para as matas temendo, como diziam, o regresso da guerra. Ao tanto falar de paz, o MPLA incute a ideia de que ela não está segura.

Mas, afinal, quem falava em guerra? O próprio regime que estava então a movimentar as Forças Armadas Angolanas (FAA) por todo o país, justificando com uma normal movimentação de efectivos. A população não acreditava. E era isso mesmo que o MPLA pretendia. E é isso mesmo que o MPLA pretende em 2022.

Na capital mas com repercussão nacional, Bento Bento, pedia aos militantes do seu partido para que controlassem “milimetricamente” todas as acções da oposição, em especial da UNITA, para não serem “surpreendidos”. Hoje o general Francisco Furtado, ministro de Estado e chefe da Casa Militar de João Lourenço, avisa que quem criticar o MPLA “vai levar no focinho”.

De acordo com o então primeiro secretário de Luanda do MPLA, a oposição liderada pela UNITA decidira enveredar por “manifestações violentas e hostis, provocando vítimas, inventando vítimas, incentivando à desobediência civil, greves e tumultos, provocando esquadras e agentes e patrulhas da polícia com pedras, garrafas e paus”. Hoje o MPLA diz o mesmo.

Era caso para dizer: Que bandidos são estes tipos da oposição. E na altura (como hoje) Francisco Furtado ou Rui Falcão ainda não descobriram que Alcides Sakala, Lukamba Gato, Isaías Samakuva, Abílio Camalata Numa, Adalberto da Costa Júnior têm em casa um arsenal de Kalashnikov, mísseis Stinguer e Avenger, órgãos Staline, katyushas, tanques Merkava e muito mais…

Dizia Bento Bento que a direcção do MPLA “tinha dados da inteligência (informações) nas suas mãos que apontavam que a UNITA estava prestes a levar a cabo um plano B”. Tinha? Será que agora não tem? Francisco Furtado sabe, com certeza.

Este plano previa, segundo os etílicos delírios de Bento Bento, “uma insurreição a nível nacional, tipo Líbia, Egipto e Tunísia”, sendo as províncias de Luanda, Huambo, Huíla, Benguela e Uíge as visadas. Aí estava o espírito da guerra, tão querido ao MPLA.

Sempre que no horizonte se vislumbra, mesmo que seja uma hipótese remota, ténue e embrionária, a possibilidade de alguma mudança, o regime dá logo sinais preocupantes quanto ao medo de perder as eleições e de ver a UNITA a governar o país.

Para além do domínio total dos meios mediáticos, tanto nacionais como estrangeiros, o MPLA sempre apostou forte numa estratégia que tem dado bons resultados. Isto é, no clima de terror e de intimidação.

No início de 2008, circularam notícias convenientemente plantadas que, no Moxico, “indivíduos alegadamente nativos criaram um corpo militar que diz lutar pela independência”.

Disparate? Não, de modo algum. Hoje volta a circular a tese de Bento Bento, Luvualu de Carvalho, Francisco Furtado e Rui Falcão de que todos aqueles que têm, tiveram, ou pensam ter qualquer tipo de armas são terroristas da UNITA.

E, na ausência de melhor motivo para aniquilar os adversários que, segundo o regime, são isso sim inimigos, o MPLA poderá sempre jogar a cartada, tão do agrado das potências internacionais que incendeiam muitos países africanos, de que há o perigo de terrorismo ou do regresso à guerra civil.

Se no passado, pelo sim e pelo não, falaram de gente armada no Moxico, agora deverão juntar o Bié, Benguela ou Huambo.

Bento Bento, foi um dos maiores especialistas de Eduardo dos Santos e, agora, Francisco Furtado e Rui Falcão reforçam os snipers de João Lourenço nesta matéria, não tardarão – se assim for conveniente – a redescobrir mais uns tantos exércitos espalhados pelas terras onde a UNITA tem mais influência política, para além de já ter dito que quem falar contra o MPLA vai para a cadeia, vai “levar no focinho”.

Tal como mandam os manuais, o MPLA subiu este ano o dramatismo para, paralelamente às enxurradas de propaganda, prevenir os angolanos de que ou ganha ou será o fim do mundo.

Além disso, nos areópagos internacionais vai deixando a mensagem de que ainda existem por todo o país bandos armados, ou a armar-se, que precisam de ser neutralizados.

Aliás, como também dizem os manuais totalitários, se for preciso o MPLA até sabe como armar uns tantos dos seus mercenários para criar a confusão mais útil. E, como também todos sabemos, em caso de dúvida a UNITA será culpada até prova em contrário.

O regime reedita em 2022, obviamente numa versão acrescentada e melhorada, as linhas estratégicas do seu plano de 2008 e de 2012.

“A situação interna não transparece em bons augúrios para o MPLA, devido a várias manobras propagandísticas por parte dos partidos da oposição e de cidadãos independentes apostados em incriminar o Partido no Poder para fazer vingar as suas posições mercenárias junto da população civil e das chancelarias e comunidade internacional”, lia-se na versão de 2008.

Na de 2012 manteve-se o conteúdo e só a embalagem mudou qualquer coisa. Pouca coisa, aliás. Na de 2017 apenas deixou de aparecer a chipala de José Eduardo dos Santos. Em 2022 passa-se exactamente o mesmo.

No terreno está a onda propagandística sobre a UNITA e os seus dirigentes. Para além da apertada vigilância sobre os dirigentes da cúpula da UNITA (incluindo escutas telefónicas), foram reactivadas as células-mortas de informadores no interior do Galo Negro, bem como as Brigadas Populares de Vigilância nos bairros de Luanda e nas capitais provinciais, as quais podem contar – se for necessário – com armamento ligeiro.

Afinal, na História recente (desde 1975) do regime angolano, nada se perde e tudo se transforma para que os mesmos continuem a ser donos do poder e, é claro, de Angola.

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